Saltar para os conteúdos
Best-sellers no séc. XVI: sucessos editoriais dos primórdios da imprensa em Portugal

Best-sellers no séc. XVI: sucessos editoriais dos primórdios da imprensa em Portugal

1- Obras não ficcionais

O impacto da invenção da imprensa móvel atingiu todos os campos do saber, da Teologia à Astronomia, da Geografia ao Direito. Descrevem-se aqui alguns casos de sucessos editoriais dos séculos XVI e XVII, com ligação a Portugal, em diversos campos do saber (ficará para outra oportunidade uma excursão pelas obras ficcionais).

Zacuto, Abraão, ca 1450-ca 1532

Almanach perpetuum / [trad. lat.] José Vizinho. – Leiria : Abraão d’Ortas, 25 Fevereiro 1496.

Almanach perpetuum
Uma das tabelas astronómicas contidas no Almanach… de Zacuto

Primeiro tratado científico impresso em Portugal, composto em hebraico e traduzido para latim, este Almanach (composto de várias tabelas astronómicas) foi instrumento fundamental nas viagens marítimas portuguesas da época (juntamente com uma versão melhorada do astrolábio criada também por Abraão Zacuto). Tornou-se obra incontornável da astronomia, conhecendo mais quatro edições latinas (impressas até 1528, em Veneza), uma edição ladina (Salonica, 1568) e várias versões hebraicas e árabes manuscritas. As tabelas de Zacuto foram ainda incorporadas em trabalhos astronómicos posteriores de autores quinhentistas como Gaspar Nicolas, André Pires, Pedro Nunes ou Henri Baers.

Polo, Marco, 1254-1323?

Marco Paulo. Ho liuro de Nycolao Veneto. Ho trallado da carta de huu[m] genoues das ditas terras…. – Lyxboa : per Valentym Fernãdez, 1502.

Marco Paulo. Ho liuro de Nycolao Veneto. Ho trallado da carta de huu[m] genoues das ditas terras....
Início do livro primeiro da obra de Marco Polo, na ed. portuguesa de 1502
A partir da versão “original” de Rustichello da Pisa (séc. XIII), conhecem-se cerca de 150 cópias manuscritas em várias línguas, que asseguraram a difusão do relato de Marco Polo antes do advento da imprensa. A partir de 1477, com a 1ª impressão da obra (em versão alemã), sucederam-se as edições impressas: a versão latina em 1490, a veneziana em 1496, a portuguesa em 1502, a espanhola em 1503, a francesa em 1556, a inglesa em 1579, a holandesa em 1664.

O primeiro [-quinto] liuro das ordenações. – Terceira impressam de 1539. – Seuilla : em casa de Iua[n] cro[m]berger ; [Lisboa] : Luiz Rodriguez, 1539.

O primeiro [-quinto] liuro das ordenações
Folha de rosto do primeiro livro das Ordenações…, ed. 1539
As Ordenações Manuelinas foram o primeiro corpus juridico compilado com o propósito de conhecer difusão impressa em Portugal, no que foi a primeira iniciativa estatal neste país de utilizar a tipografia para fins administrativos. Este carácter normativo de impulso régio forçosamente tornou a publicação, de difusão, conhecimento e aplicação obrigatórias, num bestseller seiscentista. Teve 3 codificações (“sistemas”), cada uma com várias edições atualizadas: um 1º “sistema” com 2 edições (em 1512-13 e 1514), um 2º “sistema” editado em 1517-18, e um 3º “sistema” com 4 edições (1521, 1533, 1539 e 1565) — vigorando este último até 1603. Sabe-se que a 2ª edição do 1º “sistema” teve uma tiragem de 5000 exemplares (1000 de cada um dos 5 volumes). A cada nova edição era imposta a destruição das versões anteriores e a aquisição da mais recente.

Álvares, Francisco, 1470-1540

Ho Preste Ioam das indias : verdadera informaçam das terras do Preste Ioam / segundo vio & escreueo ho padre Francisco Aluarez, capellã del rey nosso senhor. – Agora nouam[en]te impresso por mandado do dito senhor. – [Lisboa] : em casa de Luis Rodriguez, 22 Outubro 1540.

Ho Preste Ioam das indias
Folha de rosto da ed. de 1540 de Ho Preste Ioam das indias…

O mito do Preste João, nascido no séc. XII no contexto das Cruzadas, teve ampla circulação na Europa medieval, referindo a existência de um potente reino católico no Extremo Oriente (Tartária, Índia ou Abissínia), ao qual vários escritos faziam referência. Por volta de 1490, sem notícias rigorosas, os portugueses localizam as terras do Preste João na Etiópia. Em 1521, uma embaixada portuguesa à região toma finalmente contacto com a realidade, constatando que o reino não era de um “Preste” (Prêtre), nem João, nem potente. O relato da embaixada por Francisco Álvares é a constatação de um mito refutado. Apesar disso, ou talvez por isso, constituiu um enorme sucesso — nos anos seguintes conheceu quatro traduções europeias, em sete edições: uma em italiano (1550), três em castelhano (a partir de 1557), uma em alemão (1566) e duas em francês (a partir de 1574).

Vaz, Francisco, fl. 15–

Obra novamente feita da muyto dolorosa morte, & Payxaõ de N. S. Jesu Christo : conforme a escreveram os quatro Santos Evangelistas / feyta por hum devoto Padre chamado, Francisco Vaz, de Guimaraens. – Lisboa : na officina de Domingos Carneyro, 1659.

Obra novamente feita da muyto dolorosa morte, & Payxaõ de N. S. Jesu Christo
Página da obra do Padre Francisco Vaz, na ed. de 1659, com uma das várias gravuras que ilustravam o texto

O insuspeito bestseller: o Padre Francisco Vaz não é um autor de relevo na língua portuguesa; esta sua obra não é original ou singular. E, no entanto, este Auto da Paixão de Cristo teve, pelo menos, 12 edições ao longo de mais de 220 anos, entre a 1ª de 1654 e a 12ª de 1877, numa permanência que parece ter-se consolidado ao longo do tempo (3 edições no séc. XVII, 3 edições no séc. XVIII, 6 edições no séc. XIX). A sua simplificação evangélica, em rima de fácil compreensão, leitura e memorização, terão ido ao encontro de uma religiosidade popular que lhe asseguraram a permanência plurissecular.