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Raro tesouro musical italiano da BNP dado à estampa: um autógrafo de Niccolò Jommelli (1714-1774)

Raro tesouro musical italiano da BNP dado à estampa: um autógrafo de Niccolò Jommelli (1714-1774)

Acaba de ser publicado pela Libreria Musicale Italiana (Saggi Ruspoli), um livro da autoria de António Jorge Marques sobre a obra Laudate pueri Dominum, de Niccolò Jommelli (1714-1774), cuja única fonte conhecida se encontra na BNP.

Laudate pueri Dominum

A obra pertence ao Fundo do Conde de Redondo (F.C.R. 549) e só há alguns anos a sua autoria foi identificada como sendo de Niccolò Jommelli (1714-1774), mestre músico napolitano que pouco antes da sua morte já era considerado um dos maiores compositores vivos, e que mais tarde passou a ser consistentemente incluído na plêiade dos mais memoráveis autores do século XVIII e de todos os tempos.

Trata-se de manuscrito autógrafo – o único deste compositor na Península Ibérica –  de uma raríssima e monumental obra para 4 coros (16 vozes) e baixo contínuo (3 órgãos) que, pelas suas características, terá sido composta para uma ocasião de inusitada relevância social, política e/ou religiosa. Por lhe faltar o primeiro caderno (as primeiras 8 páginas), onde estava originalmente registado o nome do autor, o título e o ano de composição, além da instituição a que se destinou, o manuscrito permaneceu num limbo anónimo durante mais de cem anos.

Laudate pueri Dominum
Laudate pueri Dominum, F.C.R. 549
https://purl.pt/16619

Em 2003, o manuscrito despertou a atenção do investigador António Jorge Marques. A consulta dos catálogos em busca de um possível autor revelou-se infrutífera. Anos mais tarde, uma análise caligráfica comparativa permitiu finalmente identificá-lo como Niccolò Jommelli. Investigações posteriores comprovaram que a obra fora estreada com pompa e magnificência durante a cerimónia de Segundas Vésperas da Festa de S. Pedro e S. Paulo (1750), na Basílica de São Pedro, em Roma.

É uma obra única e extraordinária – e até à sua identificação, completamente desconhecida – no contexto da produção policoral sacra de Jommelli: o extenso e minucioso catálogo temático de Wolfgang Hochstein, Die Kirchenmusik von Niccolò Jommelli (1714-1774), não regista nenhum exemplo para mais de dois coros (8 vozes). Além de ser a obra de estreia do compositor na basílica vaticana, utilizou dois coros colocados no varandim por baixo da grande cúpula, a uma distância de cerca de 53 metros dos coros colocados junto ao altar. As soluções policorais aí contidas demonstram um alto grau de experimentação por Jommelli, então recentemente contratado como maestro assistente na Basílica de São Pedro.

Retrato de Jommelli por Johann Caspar Lavater

As circunstâncias e eventuais razões do desaparecimento desta obra do repertório sacro, assim como o percurso do manuscrito até ao seu presente destino, são explanadas por António Jorge Marques no livro agora publicado pela Libreria Musicale Italiana, uma edição que tem a sua génese na menção especial que o ensaio incluso ganhou no 6º Concurso Internacional de Estudos Musicológicos Príncipe Francesco Maria Ruspoli, em Vignanello, 2014.

A pedido do editor Giorgio Monari, e a fim de recuperar este precioso património possibilitando o estudo aprofundado pelos especialistas e dando-o a conhecer ao público amante de música, a segunda parte do livro inclui a reconstrução e edição crítica do Laudate pueri Dominum.