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Sobre a obra… “Academia nos montes e conversações de homens nobres”

Sobre a obra… “Academia nos montes e conversações de homens nobres”

Foi recentemente digitalizada a obra “Academia nos montes e conversações de homens nobres”, obra do século XVII a que foram dedicados dois artigos – na Brotéria (Pereira, 1994) e na Península: Revista de Estudos Ibéricos (Santos, 2004) – cujos traços essenciais brevemente aqui se resumem.

Trata-se de uma obra com uma fraca “estética tipográfica”, patente no carácter denso do texto, na imperfeição da mancha tipográfica, na proliferação de citações à margem e na dificuldade de leitura do tipo de letra utilizado (Pereira, 1994).

Mas se estas características poderão justificar a falta de interesse pela obra ao longo dos séculos, podem também contribuir para o mistério que a envolve, não só por se tratar de uma obra rara, mas também pelos poucos elementos de que dispomos relativamente ao seu autor, Manuel Monteiro de Campos, que parece ter deliberadamente procurado o anonimato (Pereira, 1994).

Academia nos montes, e conversações de homens nobres
Academia nos montes, e conversações de homens nobres : offerecida ao… senhor D. Manoel d´Acunha Bispo… / autor Manoel Monteiro de Campos. – Em Lisboa : por Antonio Alvarez, 1642 (Cota BNP RES. 4880 P.)

Outro aspeto interessante é o recurso às “conversações” ou diálogos, que ajudam a “dramatizar” a discussão dos assuntos, envolvendo até a criação de “personagens” diferentes para cada “conversa” ou capítulo. Ao todo são criadas 41 personagens diferentes – como o filósofo, o fidalgo, o criado, o político, a alma, a inteligência, o peregrino, o estudante ou a memória – representativas de situações humanas que interessa tratar na obra (Pereira, 1994).

Nesses diálogos, os “homens nobres”- que para o autor são todos os que norteiam o seu comportamento pela virtude – discutem os temas próprios do seu tempo, sendo objetivo do livro corrigir os defeitos da sociedade portuguesa do século XVII e alertar para os sintomas da sua decadência moral e social (Pereira, 1994), inscrevendo-se na denominada “literatura de comportamento social” (Santos, 2004).

Início da “Conversação IV
Início da “Conversação IV – Em que consiste a maior felicidade de qualquer homem…”

Neste sentido, tanto Manuel Pereira (1994), como Zulmira Santos (2004) comparam “Academia dos montes” à obra “Corte na aldeia e noites de inverno”, de Francisco Rodrigues Lobo, em que se abordam temáticas comuns na literatura seiscentista como as dicotomias vícios/virtudes, aldeias/cidade, política/religião, etc.

Por último, uma referência para os cenários em que as conversas têm lugar, que revelam sempre um “ambiente acolhedor”, como a “calma monotonia” da aldeia, o deambular pelos jardins e pomares, a lareira num final de tarde ou a sala em que “se vão dando as cartas” (Pereira, 1994). À semelhança do livro “Corte na aldeia…”, a “Academia nos montes” evoca um ambiente retirado e afastado da cidade, em que as conversas se podem mais facilmente soltar e as personagens “espreitar o que passa na aldeia” (Pereira, 1994).

Para além dos artigos aqui referenciados, poderá consultar-se a tese de mestrado de Manuel Gonçalves Pereira, apresentada na Faculdade de Filosofia de Braga em 1994, que se encontra publicada e disponível para consulta na BNP:

Pereira, Manuel José Gonçalves – A academia nos montes e conversações de homens nobres: a obra e o seu contexto histórico. Braga: APPACDM, 1995.

 

Bibliografia:

PEREIRA, Manuel J. G. – “A academia nos montes e conversações de homens nobres: uma obra rara do século XVII: notícia e contextualização”. Brotéria, 1994, n.º 139,  p. 343-361.

SANTOS, Zulmira C. – “Lei ‘política’, lei ‘cristã’: as formas da conciliação em Academia nos montes, e conversações de homens nobres (1642) de Manuel Monteiro Campos”. Península: Revista de Estudos Ibéricos, 2004, n.º 1, p. 307-318. https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/8737/2/artigo13101.pdf